O Dia que eu Conheci com Giorgio Armani

in #portuguese9 years ago

Em agosto de 2008 eu fui morar em Milão e depois de três semanas aconteceu o Fashion Week. Eu consegui uma credencial de jornalista freelancer e fui para alguns desfiles com o meu irmão e um amigo italiano, ambos fotógrafos. No domingo, nós tentamos entrar no desfile do Roberto Cavalli, mas nós não tínhamos convite. Os seguranças nos barraram e o jeito foi desistir.

"Você vai tentar entrar no desfile do Giorgio Armani?", o amigo do meu irmão me perguntou.


By Lorenzo Bozzi, via Wikimedia Commons

Este era um dos desfiles mais importantes da temporada e aconteceria no prédio da grife. Eu não estava a fim implorar para o segurança me deixar entrar, mas ele insistiu.

"Eu vou até lá com você e a gente vê o que acontece."

Chegamos na porta do desfile com uma hora e meia de antecedência. A rua onde o prédio da Armani localizava-se estava interditada pelos policiais.

"E se eu falar que acabei de chegar do Brasil e perdi o convite?", eu sugeri.

"Não vai dar certo", ele me disse. "Vamos andar em volta do prédio como quem não quer nada."

Ao nos aproximamos do backstage vimos um aglomerado de meninas. Três seguranças faziam escolta e algumas mulheres do staff Armani organizavam uma fila. Eram 30 meninas que conversavam animadamente. O Cristian me empurrou e disse:

"Vai! Entra na fila."

Eu nem parei para pensar, passei por trás dos seguranças, dei meia-volta e me aproximei de algumas meninas, fingindo conversar com elas. A porta se abriu e elas começaram a andar. A cada passo eu estava mais próxima de entrar no império Giorgio Armani. As meninas seguravam um papel com o nome e a foto de uma modelo. Eu não tinha nada além da cara de pau.

Dentro do prédio, três funcionárias distribuíam crachás. Eu não sabia o que fazer e comecei a perambular, fugindo delas. Notei que elas entregavam um crachá padronizado e não perguntavam nada. Escolhi a que parecia ser a mais simpática e fui até ela que se atrapalhou e derrubou todos os crachás no chão. Eu fiquei parada na frente dela, pensando: ferrou. Tentava não olhar diretamente para ninguém. Assim que um crachá se soltou dos outros, ela o entregou para mim e se desculpou pela demora. No crachá estava escrito: Vestiarista (em italiano). Ou seja, eu teria que ajudar uma modelo a se vestir.

vestiarista.jpg

No backstage havia araras de roupas com as fotos das modelos. A cada 5 minutos, um segurança caminhava entre nós, certificando-se que tudo corria bem. Eu estava com medo de ser descoberta, pois faltava uma hora para o desfile começar. Pensei em me esconder no banheiro, mas foi então que vi uma menina confusa, tentando entender como iria vestir um colete-biquini na modelo. Ela não entendia a lógica da criação. Em segundos, montei um plano na cabeça. Olhei para ela, coloquei minha bolsa no chão, marcando meu território e comecei a falar no meu dialeto italiano-espanhol-português.

"A peça está do avesso. Esta parte vai no ombro, este é o lado da frente. Entendeu?", eu dizia com convicção. Ela agradeceu a minha ajuda e aproveitou para me perguntar onde ficava o banheiro. Eu apontei para qualquer direção e ela se foi.

Enquanto isso, umas das mulheres do staff veio em minha direção. Eu tinha certeza que era para me expulsar dali mas, na verdade, ela queria me explicar como eu deveria colocar o sapato na modelo. Eu concordava com a cabeça e não dizia uma palavra. A menina voltou do banheiro e começou a desconfiar de mim. Ela perguntou por que eu estava ali ao lado dela. Eu menti.

"Eu ajudo os seguranças. Preciso ter certeza que ninguém vai pegar alguma roupa, sapato ou acessório no final do desfile, mas isso é um segredo."

Ela ficou em choque com a minha revelação e não me questionou mais nada. Foi neste momento que Giorgio Armani apareceu. Ele caminhava tranquilamente pelo corredor, vestia calça preta, blusa preta e sapatos brancos. Os cabelos brancos e os olhos azuis ressaltavam. Eu olhava para ele e só pensava, preciso entrevistá-lo.

Logo depois, as modelos chegaram. Eu fingia que fazia alguma coisa, mas na verdade não fazia nada. Eu olhava para as pessoas, mas elas estavam tão concentradas que eu me tornei invisível naquele burburinho. O primeiro desfile foi para os donos de lojas Giorgio Armani espalhadas pelo mundo. Tudo ocorreu bem e o staff pediu que todos ficassem à vontade. Em meia hora começaria os preparativos para o desfile principal. Avistei uma modelo brasileira que eu conhecia e fui falar com ela.

"Oi Flávia."

"O que você está fazendo aqui?", ela me perguntou chocada ao me ver.

Eu lhe expliquei tudo: como eu tinha entrado, o tempo que estava lá me ‘escondendo’ e que queria fotografar modelos brasileiras com o Giorgio Armani e vender a foto para alguma revista no Brasil. O problema era que eu não tinha uma câmera fotográfica. Ela chamou outras três modelos, uma delas tinha uma câmera e todas toparam me ajudar.

eu e a s modelos 1.JPG
Sammya, Fabiana Capra, Martha Streck, Flávia Lucini e eu

A cena era engraçada. Eu com 1,60m ao lado de quatro modelos magras e altas caçando o Giorgio Armani no backstage. Quando eu o vi, segui em direção à ele e perguntei no meu dialeto:

"Giorgio, posso take a foto of you with the models?"

Ele sorriu e disse:

"Certo che sì." (Claro que sim)

Fabiana Capra, Giorgio Armani e Flávia Lucini.jpg
Fabiana Capra, Giorgio Armani e Flávia Lucini

Eu nem acreditava no que tinha acabado de fazer. Eu chamei o Imperador da Moda de Giorgio, como se estivesse falando com o meu tio. Ele encostou em uma mesa e as modelos se posicionaram ao seu lado. Uma delas estava longe e correu gritando em nossa direção:

"Me esperaaa!"

Sammya, Fabiana Capra, Giorgio Armani, Flávia Lucini e Martha Streck.jpg
Sammya, Fabiana Capra, Giorgio Armani, Flávia Lucini e Martha Streck

A foto ficou ótima e sem mais nada a perder, chamei-o de novo para pedir mais um favor:

"Giorgio, posso take a photo with you?"

Ele sorriu e me abraçou.

eu e giorgio armani.JPG

Eu o elogiei em italiano. "Siete fantastici!" (Você é fantástico)

Ele agradeceu e partiu. Assim que acabou o desfile, eu voltei para casa com esta história para contar, uma foto para ser vendida e outra para ficar eternizada.

Sort:  

Caramba, que história :) Muito bom @marcelli, que maravilha,parabéns pela ousadia e coragem :) Afinal, ele é um ser humano como todos e essa "divindade" atribuída a ele deve ser somente uma visão distorcida que temos com relação a autoridade.

hahaha eu fui com a cara e a coragem.. sim ele foi super tranquilo.. e um monte de gente com medo dele...A lenda da moda!. e eu lá com uma Sony cybershot tentando o meu melhor. kkkk

Que delícia de história, @marcelli! Dei uma risada tão alta quando você disse que só tinha a "cara de pau" que o Thor até se assustou aqui! Hahahahaha

Amei essa aventura que deu totalmente certo, partindo do já incerto não que tomaria. Ou seja, temos de tentar tudo mesmo, sem medo da felicidade!

Abraços mil procê! =)

Ahh que bom que você gostou!!! Eu fui muito cara de pau! Era o único jeito... Obrigada pela mensagem!!

Tudo pela fotografia! Bem trovata essa história :-) Valeu!!!

Obrigada @wagnertamanaha!!! Sempre tentando o meu melhor!!